“A Dança” de Klauss Vianna

” Não decore os passos, aprenda o caminho”
Klauss Vianna

A dança…

É difícil vivenciar com intensidade nossas emoções e sentimentos mais profundos. Por vezes, esse enfrentamento assume a conotação de um risco, que nem todos estamos dispostos a enfrentar.

Acostumados a introjetar a ordem à nossa volta, habituamo-nos a não olhar, não ouvir, não sentir intensamente e desprezar a importância dos fatos e acontecimentos menores, quase imperceptíveis – embora fundamentais.

Quando trabalhamos o corpo é que podemos perceber melhor esses pequenos espaços internos, que passam a se manifestar através da dilatação.

Só então esses espaços respiram.

Os espaços correspondem às diversas articulações do corpo, onde é possível localizar importantes fluxos energéticos e onde se inserem os vários grupos musculares.

No seu sentido mais amplo, a idéia de espaço corporal está intimamente ligada à idéia de respiração – que, ao contrário do que pensamos, não se resume à entrada e à saída de ar pelo nariz. Na verdade, o corpo não respira apenas através dos pulmões.

Em linguagem corporal, fechar, calcificar e endurecer são sinônimos de asfixia, degeneração, esterilidade. Respirar, ao contrário, significa abrir, dar espaço.

Portanto, subtrair os espaços corporais é o mesmo que impedir a respiração, bloqueando o ritmo livre e natural dos movimentos.

Imagem muito forte de nossa emoção, a respiração representa nossa troca com o mundo.

Há dias em que estamos mais emocionados, mais tristes, ou alegres, ou ansiosos, ou eufóricos e toda nossa respiração se modifica.

A respiração abre espaços para percebermos musculaturas mais profundas que, simbolicamente, chamaremos de musculaturas da emoção.

O primeiro passo em direção a uma maior harmonia interna é deixar o ar penetrar fundo em nosso corpo.

Quando um ator ou bailarino se expressa mal, mais do que uma limitação técnica o que falta a estes intérpretes é ritmo universal.

Bloquear ou não saber lidar com a respiração, com a expansão e o recolhimento que conduzem o ritmo interno só contribui para criar couraças no corpo.

Pessoas de corpo inexpressivo estão privadas de oxigenação.

A partir do momento em que bloqueamos ou dificultamos nossa respiração interna, começamos a matar nossa sensibilidade, a intuição, todo o corpo.

Quando podamos a expressividade de nosso corpo, impedindo que respire, estamos cortando nosso cordão umbilical com o mundo.”

“…Quando o som penetra em nossos ouvidos – falo do som harmônico, musical, do som ideal para uma sala de aula – surge uma reação interna: esse som tem uma vibração e, ao captá-lo, nosso corpo gera movimento. É um princípio ingovernável que podemos aprender a domesticar.
Isadora Duncam trabalhou os cinco sentidos…”

Quando uma técnica artística não tem um sentido utilitário, se não me amadurece, nem me faz crescer, se não me livra de todos os falsos conceitos que me são jogados desde a infância, se não facilita meu caminho em direção ao autoconhecimento – então não faço arte, mas apenas um arremedo de arte. Não sou um bailarino, mas um mímico, o pior gênero de mímico. Conheço apenas a forma, que é fria, estática e repetitiva e nunca me aventuro na grande viagem do movimento, que é a vida e sempre tenta nos tirar do ciclo neurótico da repetição.
Se a dança se torna adulta em min, se levantar o braço é um processo que conheço intimamente, que conheço como meu, posso então criar um gesto maduro, individual. À medida que trabalhamos, é preciso buscar a origem, a essência, a história dos gestos – fugindo da repetição mecânica de formas vazias e pré fabricadas. Só assim o trabalho resultará em uma criação original, em uma técnica que é meio e não fim, pois a técnica só tem utilidade quando se transforma em uma segunda natureza do artista.” (58)

A repetição dos movimentos em uma sala de aula leva – ou deveria levar – à observação de nossas dificuldades. Nossas articulações funcionam como alavancas que conduzem nossos movimentos. Se faço um movimento e coloco a tenção em um ponto que não é o ideal, meu corpo faz uma compensação de forças. Somente a consciência do gesto me fará levar essa tensão para o ponto certo.

O que é uma técnica? Para mim, além de estética, a técnica tem que ter um sentido utilitário, claro e objetivo. De que me adianta saber fazer movimentos belos e complexos se isso não me amadurece nem me faz crescer? Se não me faz abandonar os falsos conceitos competitivos da dança e da arte, de que me adianta essa técnica? Um dos requisitos básicos de um movimento é que ele seja claro e objetivo – a beleza surge daí. Toda verdade é forte e bela. A arte não é gratuita: se não aprendo com ela, se não cresço com ela, então é a mesma coisa que não fazer nada. Como bailarino, preciso colocar minha personalidade a serviço da dança e de cada personagem que faço. É ridículo ouvir pessoas dizendo, no final de um espetáculo, “como ele salta, que beleza!” O próprio público é conservador e busca o que existe de mais fácil na arte. Mas eu não diria que o papel do artista e do bailarino é realçar esse lado conservador do público.” (61)

A primeira coisa que um professor precisa fazer é dar um corpo ao aluno. Mas como é possível dar um corpo a alguém? Todos sabemos que o corpo existe, mas sabemos intelectualmente. Só nos lembramos dele quando surge algum problema, alguma dor, uma febre. Para acordar esse corpo é preciso desestruturar, fazer com que a pessoa sinta e descubra a existência desse corpo. Somente aí é possível criar um código pessoal, não mais aquele código que me deram enquanto nasci e que venho repetindo desde então.” (62)

A energia do cosmo é uma espiral e essa energia se repete no corpo humano. Quando é interrompida, ou quando não temos consciência de sua existência, os movimentos tornam-se aleatórios e perdemos nossa individualidade. Então, quando uma técnica faz com que as pessoas prendam o joelho, apertem a bunda e estufem o peito, sem saber o motivo para isso, sem respeitar a individualidade de cada um, o corpo deixa de se relacionar com o ambiente, com o universo, com sua própria natureza. Não posso inventar, fabricar movimentos a partir do nada porque tudo tem um sentido muito profundo, tudo tem uma razão maior. Não podemos ficar longe desse circuito energético que é a relação entre microcosmo e macrocosmo.” (64)

“A dança é um ato de prazer, de vida, e só deixa de ser prazerosa e viva no momento em que passa a ser ginástica, exercício, competição de força e de ego. Uma aula não pode excluir a emoção: é preciso incorporá-la à aula. Então sou eu, com minha percepção, meus conhecimentos, vivências e emoções quem vai escolher o lugar na sala, quem vai levantar o braço, quem vai rodopiar – não é minha perna que vai subir porque o professor mandou.” (65)

“A dança e a movimentação cotidiana não se prendem ao passado ou ao futuro, nem a um professor. O que interessa é o agora. Ninguém melhor do que você pode questionar sua postura, suas ações. Não são as seqüências de postura dadas por uma pessoa à sua frente que vão fazer de você um bailarino ou uma pessoa de movimentação harmônica. A dança começa no conhecimento dos processos internos. Você é estimulado a adquirir a compreensão de cada músculo e do que acontece quando você se movimenta.” (86)

“Sentamos e andamos como pensamos. Olhando qualquer ser humano andando nas ruas pode-se determinar sua forma de vida. Com a prática, um apurado discernimento nos permitirá localizá-lo social e economicamente, ter uma idéia de sua situação na vida. Podemos conhecer nosso semelhante pelos movimentos que ele executa.
O corpo inteiro transmite um significado e conta uma história ao caminhar, ao ficar em pé ou ao sentar, ao estar, acordado ou adormecido. No intelectual, a vida é transmitida pelo rosto; no bailarino, o significado está nas pernas.” (89)
A memória gosta de relembrar do corpo inteiro: não é do rosto dos nosso spa pisque nos lembramos, mas de seus corpos e atitudes nas suas cadeiras prediletas, comendo, cozinhando, fumando, em todas as pequenas ações do cotidiano. Nós nos lembramos das pessoas como corpos em movimento e não rostos estáticos.
O comportamento poucas vezes é racional: habitualmente é emocional. Podemos dizer palavras sensatas como resultado de um raciocínio. Mas o ser inteiro reage às sensações. Para cada pensamento que surge a partir de uma sensação, um músculo se move. Através desses músculos, herança biológica do homem, o corpo inteiro registra a emoção.” (89)
As posturas da tradição dramática cristalizam a teoria dos atores e através do desenho de seus corpos é possível estudar as qualidades épicas em movimento. Culpa, astúcia, fantasia, mesquinhez, êxtase e atração transparecem em alguns movimentos das mãos. A Vicência de cada um transparece em seus movimentos e na postura. A personalidade entra na estrutura – mais uma vez pela negação ou pela afirmação pessoal.

Na expressão de cada um existe um equipamento mental e emocional, temperamento, experiências e preconceitos pessoais, influenciando e controlando a relação de cada parte do corpo com o todo. Este equipamento inclui o trabalho conjunto do movimento, a ação neuromuscular sobre os ossos.
Os ossos representam papel importante no sentido de controle e na posição de cada homem no mundo. Através deles cada um de nós determina seu grau de segurança, buscando continuamente o ritmo do movimento. Mecânica, fisiológica e psicologicamente o corpo humano é compelido a lutar por equilíbrio.” (90)

“O inconsciente é o tesouro e o cerne da criatividade e uma das chaves para a fisiologia… Mesmo no melhor cérebro, somente 15% da energia total são assimiláveis pelas determinações conscientes; 85% são usados no processo vegetativo, no funcionamento do coração e assim por diante… O corpo humano, assim como tudo o que for parte da vida, encontra os mesmos problemas estruturais de forças agindo reciprocamente… Através de uma força de alavanca organizada, os ossos dirigem e determinam o movimento. Nossos corpos têm uma história que ultrapassa em milhões de anos a história da inteligência humana e este fato influencia de diversas maneiras a atitude humana perante a vida.”(92)

“Mesmo que as descobertas científicas sejam negadas por alguns, deve-se admitir que o corpo do bebê já se formava antes que ele começasse a pensar, falar e dar evidências da inteligência humana. Mas quando, na criança pequena, raciocínios poderosos gradualmente se desenvolvem, sua atenção começa a se dirigir não mais para o corpo e sim para o ambiente em que vive. Assim, inicia-se um processo de distanciamento intelectual do próprio corpo.”(92)
“O ser humano, assim, é um composto de forças equilibradas. Manter o apoio estrutural com o menor esforço possível nas diversas partes é um problema de ajustamento corporal às forças externas, principalmente a mecânica.
Através do equilíbrio o homem conserva a energia nervosa e dessa forma beneficia diretamente toda a sua atividade, tanto a mental quanto a física. Nesta fase do processo evolutivo, em que o homem assumiu a postura vertical, assegurou ao mesmo tempo liberdade de movimentos e maior controle sobre o meio ambiente.”(96)
“Como vimos, ao desequilíbrio emocional corresponde um desequilíbrio postural, provocado por tensões de toda ordem. No entanto, a tensão em si não constitui um problema, pois sem ela não conseguiríamos nos manter em pé ou sustentar o peso de nossa estrutura, cedendo à força da gravidade, que constantemente nos impele à queda. Na verdade, o problema está no acumulo de tensões, nas tensões localizadas que restringem a capacidade de movimento das articulações e dos grupos musculares, obstruindo o fluxo energético que atravessa nosso corpo.
Ao observar as posturas que normalmente adotamos, é possível perceber de onde provém a maior parte das tensões. Uma tensão localizada nos joelhos ou nos cotovelos pode limitar nossa capacidade de andar ou de movimentar livremente os braços, mas esse problema pode ser evitado através do relaxamento da articulação correspondente.

Teoricamente, essa estrutura óssea deve estar sempre aberta e, para isso, costumamos empregar vários exercícios de alongamento muscular e de conservação dos espaços internos. Por exemplo: se preservarmos um maior espaço para os pulmões, a respiração ganha mais amplitude e há uma melhor oxigenação de todo o organismo, um verdadeiro incremento de energia vital. Isso pode proporcionar prazer, relaxamento e alívio da tensão muscular.”(96)

No início do trabalho corporal é muito difícil localizar as tensões musculares. Elas estão estritamente ligadas às tensões de fundo emocional e mental e em geral surgiram há tanto tempo que na maioria das vezes já constituem um hábito ou uma segunda natureza…”(98)

“No corpo humano existem vários pontos suscetíveis de tensão. Além dos anéis amplamente estudados por Reich, a língua, o cotovelo, o joelho e o dedão do pé são também grandes focos de tensão…”(98)

– Trechos do Livro de Klauss Vianna “A Dança”

” Não decore os passos, aprenda o caminho”

http://www.klaussvianna.art.br/

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~ por arauto do futuro em novembro 8, 2008 sábado.

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