A VIDA SECRETA DAS PLANTAS

A Vida Secreta das Plantas

As plantas são capazes de perceber agressões à vida praticadas do outro lado da parede. E parecem ter consciência até mesmo de intenções ocultas na mente humana.

Essa fantástica revelação — que foi tema do livro A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird, e inspirou o álbum de mesmo nome do compositor e cantor Steve Wonder — vem sendo confirmada por pesquisas científicas realizadas no Brasil. Ela faz parte de um conjunto de descobertas que deverá revolucionar a visão de mundo do próximo século e apontam para um relacionamento mais harmonioso entre o homem e a natureza.

Os xamãs — homens de conhecimento das comunidades pré-históricas — já sabiam que, por trás de seu aparente torpor, as plantas possuem uma vida secreta, cheia de percepções e atividades. Esse mundo oculto foi contactado, desde então, por visionários de diferentes épocas e lugares, como o místico alemão Jacob Boehme (1575-1624), que dizia ser capaz de penetrar a consciência das plantas.

A ciência materialista, porém, preferiu descartar esse tema, que desafiava sua limitada descrição da realidade. Ele continuaria provavelmente ignorado se, em 1966, uma descoberta casual não tivesse rompido essa conspiração de silêncio. Naquele ano, Cleve Backster, então o maior especialista americano em detecção de mentiras, teve a estranha idéia de fixar os eletrodos de um de seus detectores numa folha de dracena, espécie tropical utilizada como planta ornamental.

Ele foi movido pela simples curiosidade, mas o que encontrou abalaria os fundamentos da visão de mundo dominante. Backster suspeitava que a planta reagisse a agressões reais à sua integridade física. Mas não podia imaginar que a simples idéia dessas agressões provocasse saltos violentos nos gráficos traçados pelo aparelho. Pois foi exatamente o que aconteceu quando ele pensou em queimar uma das folhas da dracena.

E voltou a acontecer quando se aproximou dela com uma caixa de fósforos, disposto a levar sua intenção à prática. A planta parecia ler o seu pensamento e sabia distinguir as ameaças reais da mera simulação.
Sem querer, Backster abrira a porta que dava entrada a uma realidade totalmente inesperada — e desconcertante.

A grande novidade do experimento foi ter propiciado um acesso direto às percepções das plantas sem a intermediação de sensitivos humanos: não era preciso ser paranormal para contactar o mundo da consciência vegetal. Esse ponto de vista foi reforçado, em julho último, por uma pesquisa feita na Universidade de Gant, na Bélgica.

Valendo-se de imagens em infravermelho, o pesquisador Dominique van der Straeten e sua equipe descobriram que as folhas de tabaco têm a capacidade de reagir com uma espécie de febre quando infectadas por certos tipos de vírus. Como relatado no jornal Nature Biotechnology, as folhas sofreram um aumento de temperatura de até 0,4 grau Celsius, oito horas antes dos efeitos dos vírus se manifestarem, num processo “fisiológico” semelhante ao do corpo humano.

Percepção básica

Atento a tais descobertas, um brasileiro resolveu fazer uma investigação parecida. Trata-se do engenheiro Arlindo Tondin, mestre em eletrônica pela Universidade de Nova York e um dos fundadores da Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo do Campo, SP. Tondin fixou eletrodos próximo à raiz e num dos galhos de um limoeiro.

“Verifiquei que havia, entre os dois pontos, uma diferença de potencial elétrico da ordem de microvolts”, informa. “Eu já desconfiava que a ascensão da seiva estivesse associada a um fenômeno elétrico e, para confirmar isso, liguei aos eletrodos uma pilha de 1,5 volt, de modo a intensificar a corrente na região. Resultado: os frutos do galho onde estava o eletrodo ficaram maiores e amadureceram mais rápido que os demais.”

Estava provada a tese da seiva. O próximo passo era averiguar como as agressões externas afetavam a corrente elétrica que circula na planta. Para isso, o engenheiro utilizou um osciloscópio de raios catódicos de alta sensibilidade. “Conectei o osciloscópio aos eletrodos e, com uma vela, comecei a queimar algumas folhas. A resposta foi quase imediata: a imagem da tela do osciloscópio, que estava estacionária, passou a apresentar intensas variações.” Tondin espantou-se com a reação provocada por seu ato. “Comecei a questionar até que ponto eu tinha o direito de agredir o vegetal e a natureza. E resolvi interromper a pesquisa.”

O engenheiro convenceu-se da seriedade dos experimentos descritos em A Vida Secreta das Plantas. Num deles, também realizado por Backster, três plantas reagem à matança de camarões, cometida numa outra sala. Essa investigação foi conduzida com os cuida dos que caracterizam as melhores pesquisas científicas: foram escolhidos, como vítimas, animais de grande vitalidade, pois já tinha sido notado que seres doentes ou a caminho da morte não eram capazes de estimular as plantas a distância;

para evitar que a subjetividade dos pesquisadores influísse nos resultados, os camarões eram despejados numa vasilha de água fervente por um mecanismo automático, longe das vistas de qualquer ser humano;

eliminaram-se as possibilidades de que o próprio funcionamento do mecanismo ou eventuais perturbações eletromagnéticas afetassem a forma dos gráficos;

as plantas, monitoradas por detectores, foram colocadas em três salas diferentes, submetidas às mesmas condições de temperatura e iluminação.

A análise dos gráficos mostrou que as plantas reagiam intensa e sincronizadamente à morte dos camarões — numa proporção que excluía qualquer hipótese de uma flutuação puramente casual das variáveis elétricas. Backster sentiu-se respaldado para formular a tese de que os vegetais, como todo organismo vivo, dispõem de uma percepção primária que lhes permite detectar, a distância, qualquer agressão à vida.

Organismos complexos

Apesar de sua aparência simples, as plantas são organismos altamente complexos. Uma planta pequena, como o pé de centeio, possui nada menos que 13 milhões de radículas em sua raiz. Estas são formadas, por sua vez, de 14 bilhões de filamentos, que, se fossem enfileirados um após o outro, cobririam uma extensão de 11 mil quilômetros, quase a distância de um pólo a outro. Toda planta é dotada de uma malha elétrica em equilíbrio. Nas
árvores, a corrente elétrica sobe pelo anel externo e desce pelo anel central. Como demonstrou a pesquisa do brasileiro Arlindo Tondin, essa corrente está associada ao fluxo da seiva.

Os corpos sutis

Se, no homem, essa percepção básica nem sempre parece ocorrer, isso se deve ao filtro dos cinco sentidos, à força do pensamento racional, que obscurece as demais funções psíquicas, e a todo um condicionamento cultural, que determina o que deve ou não deve ser percebido. Como provaram outros experimentos, essa percepção a distância não é bloqueada por dispositivos de blindagem elétrica, como a gaiola de Faraday, nem por paredes de chumbo.

E Backster chegou a cogitar que ela não se limitaria aos organismos complexos, mas poderia descer aos níveis celular, molecular, atômico e até mesmo subatômico, perpassando toda a existência. Essa opinião ousada apresenta fortes afinidades com a hipótese da ressonância mórfica, do biólogo inglês Rupert Sheldrake, e com as revolucionárias descobertas sobre a consciência do psiquiatra checo Stanislav Grof (leia as  reportagens  “Ressonância mórfica: a teoria do centésimo macaco” e “Consciência sem limites”, em Galileu, números 91 e 94, respectivamente) .

Em outras palavras, cada planta — para não dizer cada ente material — estaria associada a um invisível e impalpável campo de consciência. Tal idéia, que vem ganhando adeptos entre os cientistas de vanguarda, converge com a visão de todas as grandes tradições espirituais da humanidade. Estas são unânimes em considerar a consciência como um dado primário da existência
e afirmam que, além de seus corpos físicos, os entes materiais são constituídos por uma série de “corpos sutis”, encaixados uns dentro dos outros como bonecas russas.

As percepções descobertas por Backster e seus sucessores configurariam um esboço ou embrião daquilo que algumas tradições chamam de “corpo mental”.
Entre esse nível mais alto e o físico, as plantas, como todos os seres vivos, possuiriam um corpo intermediário, constituído pela rede de canais por onde flui a chamada “energia vital” (que corresponde ao prana dos indianos e ao qi dos chineses). Esse “corpo vital” é o objeto de práticas médicas como a acupuntura, que se destinam a desobstruir os canais e regularizar o fluxo da energia.

Vantagem econômica

A acupuntura em plantas vem sendo praticada com sucesso pelo médico Evaldo Martins Leite, presidente da Associação Brasileira de Acupuntura. Ele orientou, há cinco anos, uma pesquisa científica rigorosa, realizada pelo biólogo Alexandre Eustáquio de Sena, na Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte, MG. Sena dividiu uma plantação de feijão em duas partes iguais, tratando uma com acupuntura e mantendo a outra como grupo de controle. As plantas submetidas à acupuntura desenvolveram maior número de vagens, maior quantidade de grãos em cada vagem e maior peso por grão.

“Como ocorre nos homens e animais, os problemas de saúde que afetam os vegetais decorrem de um perturbação na circulação e distribuição do qi, a energia vital”, explica Evaldo Martins Leite. “Isso resulta de um desequilíbrio dos princípios yang e yin (masculino e feminino).” O acupunturista ensina que as áreas de ramificação das plantas — isto é, onde os galhos saem dos troncos ou os ramos saem dos galhos — são regiões de concentração de qi.

Os ângulos externos formados nesses lugares são yang e os internos, yin. “A energia yang é responsável pelo crescimento da planta. A yin, pela produção de flores, frutos e sementes. A introdução de pregos, agulhas ou a simples raspagem das áreas correspondentes estimula um ou outro princípio e promove a função regida por ele”, informa o acupunturista. Não é possível ativar as duas funções ao mesmo tempo.

A energia é uma só: se ela for desviada para o crescimento, a produção de frutos cairá, e vice-versa. Mas as vantagens — inclusive econômicas — oferecidas pela acupuntura em vegetais são importantes demais para serem tratadas como simples curiosidade.

Na Bahia, está em curso uma pesquisa visando aumentar a produção de látex nas seringueiras e o enraizamento dos toletes de cana-de-açúcar destinados ao plantio. Reconhecendo as dimensões sutis do mundo vegetal, o homem poderá estabelecer com ele um novo tipo de relacionamento, vantajoso para ambos.

Para ler:
A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird, Ed. Expressão e Cultura-Exped, Rio de Janeiro

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~ por arauto do futuro em abril 25, 2010 domingo.

6 Respostas to “A VIDA SECRETA DAS PLANTAS”

  1. Todos aqueles que usam as chamadas plantas de poder para alavancar consciências maiores, já sabem disso, em menor ou maior grau. Quem usa Daime, Peiote, San Pedro, Jurema, Cannabis e outras plantas com o devido respeito e visando o aperfeiçoamento, conseguem se conectar com as fontes da vida e da razão.
    Creio mesmo que os saltos consciênciais que a humanidade pôde experimentar enquanto espécie, provém do uso das plantas psicoativas, que agregaram valor à sua percepção e ajudaram a moldar civilizações, como o Soma, bebida enteógena usada pelos hindús há milhares de anos. O mesmo vale para a Ahayahuaska, usada pelos incas há cinco mil anos e, segundo recentes canalizações, mais antiga ainda que esta civilização.
    Que a revista Veja “bata” no Daime é típico. Como um veículo de inconsciência coletiva, que é esta revista, poderia suportar a existência de um outro veículo, gerando consciência verdadeira?

  2. Mudando um pouco de assunto, mas ainda sendo relacionado, gostaria de achar um post do Rennó, chamado OS QUE HERDARÃO A TERRA. Cheguei a lê-lo aqui no arauto, gostaria de comentar, mas não estou achando-o em lugar algum. Achei bem coerente este texto. Alguém poderia me ajudar a encontrá-lo, por favor?

  3. Obrigado, arauto. Ainda sou meio pastel na internet.

  4. 26/04/2010 – 07h00
    Pesquisas testam potencial benefício da ayahuasca contra depressão e dependência

    Cepa da alma. Este é o significado etimológico do nome dado à bebida obtida da fervura das plantas Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis, a ayahuasca, ou hoasca, também conhecida como chá do Santo Daime. Permitida apenas em cerimônias religiosas, o composto tem sido alvo de pesquisas e pode vir a ser útil para o tratamento da depressão e até da dependência química.
    O psiquiatra Jaime Hallak, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) – Ribeirão Preto afirma que, apesar desse grande potencial, o que existe de concreto no momento são estudos preliminares que evidenciam alguns benefícios à saúde. “Os modelos experimentais com animais e os relatos esporádicos com humanos sugerem indicações como antidepressivo e ansiolítico”.
    Hallak coordena pesquisas que investigam os princípios ativos da ayahuasca, além dos seus eventuais usos clínicos. Parte desses trabalhos prevê a observação de neuroimagens funcionais para identificar as áreas cerebrais estimuladas pela substância.

    “Para pesquisadores em neurociências, a ayahuasca é um instrumento poderoso. Como psiquiatra, entendo que ela é uma rica fonte de estudos, especialmente por sua capacidade de provocar alterações nos estados da consciência”, diz.
    “A meta é aprender mais sobre a mecânica biológica que permite ao cérebro criar ou modificar seu funcionamento, dando oportunidade ao surgimento dessas alterações”, acrescenta.

    Meditação ou alucinação?
    Na opinião do médico Wilson Gonzaga, psiquiatra integrante do grupo multidisciplinar do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), responsável pela resolução que regulamentou o uso religioso da ayahuasca no Brasil, essa é uma importante distinção a ser feita. “Ampliar a consciência não significa ter alucinação em seu sentido pejorativo”, explica.
    Segundo ele, ampliar a consciência é alcançar um estado mental que permite uma reflexão profunda, semelhante à meditação. Já a alucinação é uma percepção alterada da realidade.

    Primeiros estudos
    O primeiro e maior estudo realizado sobre a bebida, dirigido pelo especialista em ciências botânicas Dennis J. Mackeena, da Universidade de Minnesota (EUA), relatou que a possibilidade de ampliação da consciência já tinha sido observada antes pelo antropólogo Michael Winkelman, ex-professor da Universidade do Arizona, que definiu essa propriedade como “psicointegradora”.
    Essa pesquisa, publicada pela revista científica Pharmacologics&Therapeutics em 2004, mostrou que o uso da ayahuasca em comunidades religiosas visava também o tratamento de alcoolismo e abuso de drogas. Consta do estudo que a maioria das pessoas com histórico de dependência e recuperação, atribuía ao consumo do chá essa mudança comportamental.
    Naquela ocasião, o pesquisador foi prudente em ressaltar que o fato poderia ser resultado do apoio social e do ambiente psicológico oferecidos pelas comunidades. Entretanto, um detalhe não escapou à sua observação: nos quadros de alcoolismo severo, há alterações nos níveis de serotonina. Concluiu-se, então, que fatores bioquímicos ligados à ayahuasca estariam envolvidos na modificação da qualidade de vida dos usuários. Para ilustrar o assunto, Mackeena referenciou uma notícia veiculada pela BBC News, que citava a ayahuasca como coadjuvante da psicoterapia no tratamento de dependências químicas numa clínica do Peru.

    SAIBA MAIS SOBRE A AYAHUASCA
    O que é – A bebida é obtida através da combinação da planta Banisteriopsis caapi (mariri) e outras ervas que são maceradas ou aferventadas, como a Psychotria viridis (chacrona ou rainha)
    Como funciona – A atividade farmacológica da ayahuasca é única, pois depende da interação das substâncias contidas nas plantas. A B. caapi contém os alcaloides harmina, tetra-hidro-harmina (THH) e, em menor quantidade, harmalina. A P. viridis, por sua vez, fornece a triptamina alucinógena de ação ultrarrápida, a N-dimetiltriptamina (DMT). A modulação da DMT é promovida pelos efeitos ativos da B. caapi). E essas substâncias têm como função mais conhecida bloquear a enzima monoaminooxidase (MAO), permitindo que o DMT seja absorvido pelo sistema digestivo. Como elas são psicoativas, possuem efeito sedativo semelhante ao harmano (também conhecido como passiflorina, alcaloide presente em uma outra trepadeira da família do B. caapi, o maracujá)
    Efeitos – O consumidor do chá pode vivenciar percepções sensoriais sem estímulos externos. Na maioria das vezes, a pessoa permanece consciente de que está sob efeito da ayahuasca, e mantém controle de suas ações. Indivíduos que fazem uso da bebida regularmente descrevem capacidade de maior compreensão de aspectos espirituais de sua própria vida
    Tempo de ação – o consumo de 100ml da bebida requer 30 minutos para entrar na corrente sanguínea e atuar sobre o cérebro. Esse efeito pode durar até quatro horas. Já a sensação de bem-estar e tranquilidade costuma se prolongar, segundo usuários

    Fontes: Jaime Hallak, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto (FMUSP-RP) e Luís Fernando Tófoli, médico psiquiatra e professor adjunto de Psiquiatria da Universidade Federal do Ceará (Ufce)

    As pesquisas em curso hoje buscam saber como os componentes do chá atuam no organismo, qual é o perfil de seus consumidores, e quais são seus efeitos no comportamento e nas habilidades intelectuais e cognitivas, como diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). “Sem resposta para essas questões, é impossível reconhecer a existência efetiva desses poderes curativos”, pondera. Apesar dessa convicção, o médico admite que diversas pessoas abandonaram um quadro de dependência química ao ingressar nessas seitas daimistas.

    Riscos
    Os especialistas são unânimes sobre o fato de que a bebida não deve ser consumida de forma deliberada. “Não é porque uma substância é natural que o abuso está autorizado. Exemplos disso são a maconha e o álcool”, observa Silveira. Como não se conhecem os possíveis efeitos tóxicos da ayahuasca, nem sua ação sobre o sistema nervoso central em formação, a bebida é contraindicada para crianças e grávidas.
    De um modo geral, os especialistas contraindicam a bebida para pessoas com transtornos psiquiátricos. “A atenção deve ser redobrada se a pessoa é portadora de esquizofrenia ou transtorno bipolar, pelo risco potencial de agudização do quadro”, completa Hallak.
    A ayahuasca também não deve ser consumida por quem usa antidepressivos. O psiquiatra Luís Fernando Tófoli, professor adjunto da Universidade Federal do Ceará (Ufce), e coordenador da Comissão de Saúde Mental da União do Vegetal, declara que existe um estudo que alerta sobre o risco potencial de uma reação grave, potencialmente letal, na interação entre a ayahuasca e certos inibidores de recaptação de serotonina, como o Prozac. Tófoli acredita que a advertência é exagerada, pois nunca se teve notícia de quadros graves. Por outro lado, faz uma recomendação específica: “A bebida jamais deve ser consumida com medicamento conhecido por tranilcipromina, um antidepressivo pouco utilizado, mas disponível no mercado”.
    “Pessoas com doenças físicas graves devem receber quantidades reduzidas ou muito reduzidas, porque pode ocorrer aumento leve dos batimentos cardíacos e da pressão, além da ocorrência de vômitos ou, mais raramente, diarreia”, previne, ainda, Tófoli.
    Outra precaução apontada por Hallak é evitar a bebida após o consumo de alimentos que contenham tiramina (queijos, chocolates, carnes em conserva, salsichas, bebidas alcoólicas, lentilha, amendoim etc.). A combinação das substâncias pode resultar no aumento da pressão sanguínea arterial. Quanto aos possíveis efeitos colaterais, o psiquiatra diz que as reações mais comuns são náuseas, vômitos e diarreia.
    Indagado sobre quanto tempo ainda seria necessário para a conclusão dos estudos e da eventual comercialização de medicamentos à base da ayahuasca, o especialista declara: “É importante que a população entenda que um dos objetivos mais importantes das pesquisas é conferir segurança ao uso dessa substância. Como todos os estudos ainda estão em sua fase preliminar, estimo que ainda deveremos esperar ao menos 10 anos até que os princípios ativos da ayahuasca possam ser comercializados”, avisa.

  5. Daime expiatório
    Revista Carta Capital – 30/03/2010 19:44:04

    Religião | O assassinato do cartunista Glauco provocou comoção, mas não há base científica para relacionar o uso da ayahuasca com tendências homicidas

    A trágica morte do cartunista Glauco e de seu filho Raoni, assassinados na noite da quinta-feira 11, reacendeu na mídia o debate em torno do uso da ayahuasca, bebida psicoativa de origem amazônica utilizada secularmente por diferentes etnias indígenas e a partir do início do século passado por vários grupos religiosos. Motivo: o assassino Carlos Eduardo Sundfeld Nunes frequentou a igreja do Santo Daime, Céu de Maria, em Osasco, na Grande São Paulo, que utiliza o chá em seus rituais e era dirigida pelo cartunista desde a década de 1990. Para especialistas e pesquisadores da substância, parte da imprensa tropeça em equívocos.

    “Pessoas que não conhecem os efeitos deste chá e seus rituais imaginam se tratar de mais uma droga”, observa o médico-psiquiatra Wilson Gonzaga, integrante do grupo multidisciplinar do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), responsável pela resolução que regulamenta o uso da ayahuasca no Brasil.

    Um ponto central a ser esclarecido, segundo Gonzaga, é que a criticada liberação do uso religioso da ayahuasca, em janeiro deste ano, é resultado de um processo de mais de duas décadas que atravessou diversos governos e foi objeto de estudo de importantes cientistas, nacionais e internacionais, nas áreas da psiquiatria, medicina e antropologia. “Para se chegar a esta aprovação foram necessários anos de pesquisas, é ingênuo dizer que o governo foi imprudente, políticos podem ser levianos, mas o Estado não é”, afirma o médico, que participou de todo o processo de legalização e regulamentação do uso da bebida amazônica.

    Segundo o médico-psiquiatra Dartiu Xavier, professor da Unifesp e fundador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), não existe base científica para associar o consumo do daime a tendências homicidas. “A mídia tem sido tendenciosa, sobretudo neste aspecto.”
    Xavier reconhece, porém, a existência de casos contraindicados, como o uso concomitante do chá com antidepressivos e o consumo por afetados com psicose. “Pode ser o caso do assassino do Glauco, mas ainda assim se trata de uma afirmação hipotética, não comprovada.”

    “Se alguém já tem surtos psicóticos subjacentes, pode eclodir, mas pode ter sido pelo consumo de qualquer droga ilícita, como a cocaína”, pondera o psiquiatra Wilson Gonzaga. Para ele, o que tem ocorrido, em alguns casos, são afirmações fora do contexto e um destaque que leva a uma leitura negativa do uso religioso da bebida amazônica. “Não podemos responsabilizar o chá pelo ocorrido.”

    De acordo com Xavier, é possível comprovar, com base em pesquisas recentes, que um número expressivo de dependentes químicos abandonou o vício após ingressarem em grupos que utilizam a bebida psicoativa em seus rituais. Caso, inclusive, do próprio cartunista Glauco. Mas daí a afirmar cientificamente que a ayahuasca pode curar a dependência química há um longo caminho.

    Pesquisas avançam, porém, neste sentido. A mais recente foi coordenada pelo próprio Xavier no Departamento de Psiquiatria da Unifesp. O estudo, feito com ratos, buscou investigar o potencial terapêutico da bebida psicoativa e o resultado revoluciona o que se sabia até então. “Verificamos que o chá age em regiões do cérebro onde o vício também atua”, explica o médico.

    Os ataques ao culto do Santo Daime e ao uso religioso da ayahuasca também são movidos por grupos que se opõem à recente regulamentação aprovada em nível federal. “Decisão embasada entre outros fatores, no direito à expressão religiosa”, defende Xavier. “Não se pode negar as religiões”, acrescenta o antropólogo Edward MacRae, representante do Ministério da Cultura no Conad e fundador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip). O antropólogo defende o diálogo. Caminho tomado pela União e que desembocou na atual regulamentação da ayahuasca.

    Com o objetivo de realizar uma revisão dos usos da bebida psicoativa ayahuasca, a Secretaria Nacional para Políticas sobre Drogas organizou um grupo multidisciplinar, coordenado pelo Conad, que reuniu cientistas e líderes religiosos durante seis meses. O objetivo era chegar a um documento oficial que norteasse a utilização da bebida. Mas conciliar as interpretações e entendimentos díspares como o religioso e o científico, não foi tarefa simples. “Para os religiosos, a ayahuasca é uma hóstia sagrada que representa Deus”, diz Xavier. O antagonismo gerou uma tremenda saia justa, observa o psiquiatra. “Como questionar se ‘Deus’ estaria prejudicando a saúde?”

    Entretanto, o diálogo com os grupos religiosos não fez o trabalho perder seu caráter científico, garante o psiquiatra. Em linhas gerais, o estudo tornou-se uma regulamentação, aprovada pelo Senad e publicada no Diário Oficial da União, em janeiro deste ano, que garante o direito do uso da ayahuasca em contexto religioso. Xavier adverte: “É preciso novas pesquisas”. A comercialização da bebida foi outro ponto discutido na comissão e que, segundo ele, merece atenção redobrada, para evitar abusos. “Neste caso, a recomendação foi para que cada grupo produzisse a bebida para coibir o comércio”, observa.

    As religiões ayahuasqueiras – como são conhecidos os cultos que utilizam a bebida – começaram a surgir no Brasil em 1930, segundo a antropóloga Sandra Goulart, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, professora da Faculdade Cásper Líbero e coautora do livro Cultu-ra e Drogas: Novas perspectivas. O primeiro grupo foi o Alto Santo, fundado em Rio Branco, no Acre, pelo maranhense Raimundo Irineu Serra. Na mesma cidade, mais de uma década depois, em 1945, surge a Barquinha, fundada pelo também maranhense Daniel Pereira de Mattos.

    Em 1961 nasce a União do Vegetal (UDV), desta vez em Porto Velho, Rondônia, criada pelo baiano José Gabriel da Costa, conhecido como Mestre Gabriel. Segundo Goulart, pouco tempo depois começa um processo de ruptura dentro dessas religiõe-s que fez surgir novos grupos. O principal deles foi idealizado por Sebastião Mota de Melo, fundador do Cefluris, também conhecido como Santo Daime, do qual o cartunista Glauco fazia parte. “A UDV e o Santo Daime são os principais grupos em termos de adeptos e de expansão, no Brasil e no exterior”, observa a antropóloga.

    O crescimento acelerado a partir de 1980 faz esses grupos invadirem as grandes metrópoles. O uso da ayahuasca deixa definitivamente de ser um culto amazônico para se tornar um fenômeno urbano, atingindo um público bem diferente dos seringueiros. Artistas, intelectuais, médicos, advogados aderem em massa à emergente religião da floresta. “É neste momento que a ayahuasca começa a ganhar mais visibilidade e a ser inserida no debate sobre drogas nas sociedades contemporâneas”, afirma a antropóloga.

    http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=6368

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