A História da Arte Maravilhosa de um Gato

A HISTORIA DA ARTE MARAVILHOSA DE UM GATO

07092008052

Era uma vez um mestre de esgrima chamado Shoken. Em sua casa vivia uma ratazana, uma verdadeira praga. Ela aparecia andando para baixo e para cima, até a luz do dia. Certa vez, Shoken fechou a porta, para que o gato pudesse apanhá-la. Porém, ela pulou no focinho do
gato e o mordeu tanto, que ele fugiu gritando. Essa tentativa fracassou.

O dono da casa trouxe então outros gatos da vizinhança, que gozavam da fama de corajosos, e os colocou dentro do quarto. A ratazana se acocorou num canto e, tão logo um gato se aproximava, ela pulava, mordia e punha o gato a correr. A ratazana parecia tão feroz, que todos os gatos hesitavam em se aproximar uma segunda vez.

Shoken ficou furioso, e resolveu apanhar ele mesmo a ratazana e matá-la. Porém, apesar de sua destreza, a ratazana escapava a cada golpe do mestre de esgrima, e este não conseguiu acertá-la. Em suas tentativas, ele dilacerou portas, shojis e karamanis. Mas a ratazana parecia deslizar no ar, rápida como um raio, escapando de cada um dos seus golpes: finalmente ela pulou em seu rosto e o mordeu. Banhado de suor, ele chamou seu ajudante e disse: “Parece que a seis ou sete léguas daqui há um gato que dizem ser o mais esperto do mundo. Vá e traga-o aqui!”.

O empregado trouxe o gato. Este não parecia distinguir-se dos outros gatos, não aparentava ser especialmente inteligente, nem feroz. Por isso, ao vê- lo, o mestre de esgrima não alimentou grandes esperanças; mesmo assim, entreabriu a porta e o deixou entrar. O gato entrou muito tranquilo, devagarinho, como se não esperasse nada de extraordinário. A
ratazana, entretanto, teve um sobressalto e permaneceu imóvel. O gato simplesmente foi se aproximando, muito devagar, agarrou-a com a boca e a levou para fora.

Nessa noite, os gatos vencidos reuniram-se na casa de Shoken, ofereceram o lugar de honra ao velho gato, fizeram uma respeitosa reverência diante dele e disseram, modestos: “Todos nós gozamos da reputação de ser bons trabalhadores. Todos nós nos exercitamos neste ofício, e afiamos nossas garras de modo a poder vencer toda espécie de ratos, e até doninhas e gambás.

Nunca poderíamos imaginar que existisse uma ratazana tão forte! Como é que você conseguiu vencê-la tão facilmente? Não guarde segredo da sua arte; por favor, revele-a para nós”.

Então o velho gato sorriu e disse: “É verdade que todos vocês, gatos jovens, são trabalhadores
esforçados. Mas desconhecem o caminho correto. Por isso, ao se depararem com alguma coisa inesperada, falham. Mas primeiro contem-me como vocês têm praticado.”

“Um gato preto aproximou-se, então, e disse: “Sou descendente de uma família famosa pela caça de ratos. Por isso decidi seguir o mesmo caminho. Sei pular sobre uma muralha de dois metros. Sei me espremer num buraco tão pequeno, que só um rato é capaz de atravessar. Desde criança tenho praticado todas as artes acrobáticas. Até mesmo ao acordar, ainda meio
adormecido e com os reflexos lentos, basta-me ver, de relance, um rato passar, e já o peguei! Mas a ratazana de hoje foi mais forte do que eu, e sofri a mais terrível derrota de toda a minha vida. Estou envergonhado.”

O velho gato retrucou: “O que você praticou nada mais foi do que a técnica (shosa, a mera arte física), mas você está obcecado com a pergunta: como vencer? E, portanto, fica apegado a uma meta! Quando os antigos mestres ensinavam a “técnica”, eles o faziam para indicar uma forma de caminho (michisuji). Sua técnica era simples e, no entanto, encerrava a mais elevada
verdade. Seus sucessores, porém, só se ocupam com a técnica. É claro que descobriram trejeitos novos, e por isso seguiram a receita do tipo “fazendo isto ou aquilo, se obtém tal e tal resultado”. Mas qual é o verdadeiro resultado? Nada além de certa destreza.
Assim foi esquecido o antigo modo tradicional, e os praticantes usaram sua inteligência até a exaustão, cada qual tentando superar a técnica do outro. E agora já não sabem como continuar. Isto é o que sempre ocorre quando só se presta atenção à técnica e quando as pessoas confiam inteiramente na própria inteligência. Esta é deveras uma função do espírito,
mas se não for baseada no caminho e apenas visar a habilidade, esta o colocará na senda errada, e tudo o que você conseguir será prejudicial. Procure a verdade na profundidade do seu Ser e pratique de agora em diante o caminho correto.”

“A seguir, um grande gato tigrado aproximou-se e disse: “Acredito que, nas artes marciais, só o espírito importa. Por isso, desde cedo, exercitei essa força (ki wo neru). Resultou em que sinto o meu espírito “rígido como o aço”, livre, carregado do “espírito ki” que preenche o céu e a terra (Mêncio).
Já ao ver o inimigo, esse espírito onipotente o prende, e obtenho a vitória antes mesmo de começar. Só então faço o primeiro gesto! Inconscientemente, cada movimento acontece de acordo com o que a situação requer. Adapto-me ao “som” do meu oponente, lanço o
meu poder sobre o rato, faço com que vá para a direita ou para a esquerda a meu bel-prazer, antecipando-me a cada gesto dele. Não me importo absolutamente com a técnica, que surge espontaneamente. Quando um rato vai passando, eu o fito com o olhar, e imediatamente ele
cai, é minha presa. Mas essa ratazana misteriosa aparece sem forma e desaparece sem deixar traços. O que será isso? Eu não sei!”

Então o velho gato lhe disse: “O que você treinou é o efeito que provém da grande força que preenche o céu e a terra. Mas você adquiriu apenas uma força psíquica, que nada tem que ver com um bem que realmente mereça esse nome. O mero fato de estar consciente da força
com a qual você deseja vencer já inibe a vitória. O seu eu está em jogo. E se por acaso o eu do outro for mais forte que o seu, o que acontece? Se você quer vencer o inimigo com a sua força superior, ele joga a força dele contra a sua. Será que você imagina realmente que será sempre mais forte, e que todos os outros serão mais fracos? Como você agirá se houver algo que a sua grande força, mesmo com a melhor boa vontade, não conseguir vencer? Esta é a pergunta a ser formulada! A força espiritual interior que você sente “livre” e “dura como o aço”, capaz de “preencher o céu e a terra” não é a grande força em si (ki no sho), porém o seu reflexo. É o seu próprio espírito, portanto, apenas a sombra do Grande Espírito. É verdade que, às vezes, se apresenta como a grande força oniabrangente, mas na realidade trata-se de algo totalmente diferente. O espírito a que Mêncio se referia é forte porque permanece iluminado pela grande
claridade. Porém o seu espírito só é imbuído de força em certas circunstâncias. Sua força e aquela mencionada por Mêncio procedem de origens diferentes, e por isso também atuam de modo diverso. São tão diferentes como o eterno fluxo de um rio, como, por exemplo, o Yang-tsé, e uma corrente repentina que se forma durante a noite. Mas qual é o espírito a ser
preservado quando você se encontra diante de algo que não pode ser vencido por nenhuma força espiritual (ki sei)? Esta é a pergunta a ser formulada! Diz um ditado: “Um gato encurralado morde até outro gato!” Se o inimigo está encurralado, correndo perigo de vida,
ele já não se importa com nada. Ele esquece a própria vida, esquece todo o sofrimento, esquece de si mesmo, não pensa em vitórias ou derrotas. Ele nem sequer nutre a intenção de cuidar da sua própria segurança. E por isso torna-se duro como o aço. Como será possível
vencê-lo através dos poderes espirituais que você atribuia a si mesmo?”

“A essa altura, um gato mais velho aproximou-se lentamente e disse: “Sim, tudo o que você disse é verdade. Por mais forte que seja, a força psíquica tem uma forma (katachi). E tudo aquilo que tem uma forma, por menor que seja, pode ser tocado. Por isso, há muito tempo estou a exercitar lentamente a minha alma (kokoro, a força do coração). Não pratico a força que domina espiritualmente o outro (o -sei- usado pelo segundo gato). Também não me fico a me debater, como o primeiro gato. Faço as pazes com o meu oponente, permito que se forme uma unidade com ele, e não me oponho a ele de modo algum. Se o outro for mais forte
do que eu, simplesmente me rendo e finjo que faço o que ele quer. De certo modo, minha arte consiste em pegar as pedrinhas que são arremetidas sobre uma cortina solta. Por mais forte que seja, o rato que queria me agredir nada encontra que possa agarrar.
Hoje, porém, essa ratazana simplesmente resistiu ao meu jogo. Ela ia e vinha tão  misteriosamente quanto o próprio Deus. Nunca vi nada igual.”

Então o velho gato replicou: “O que você chama fazer as pazes não procede da essência intrínseca, nem da grande natureza. É uma paz elaborada, artificial, um truque. Você conscientemente quer iludir o intuito agressivo do seu oponente. Mas por pensar a respeito,
mesmo durante um breve momento, ele nota a sua intenção. Se você tenta uma “reconciliação” nesse estado de espírito, só confunde e obscurece o seu próprio instinto agressivo, e a precisão de sua percepção e da sua ação fica prejudicada. Tudo aquilo que você fizer com uma intenção inibe o ímpeto original e secreto da grande natureza, e perturba o fluxo do seu movimento espontâneo. Como é que você pode esperar um milagre deste modo? Só quando você não pensa em nada, quando não deseja nem faz nada, e se rende incondicionalmente ao seu próprio ritmo e à vibração da sua natureza intrínseca (shizen no ka), quando já não tem nenhuma forma palpável, é que já nada mais no mundo pode surgir como contraforma. Então
já não existe nenhum inimigo que possa se opor a você.”

“Não acredito, por um segundo sequer, que tudo aquilo que vocês praticaram tenha sido inútil. Tudo, absolutamente tudo, pode converter-se numa forma de caminho. A técnica e o caminho também podem ser uma única e a mesma coisa, e o espírito que tudo governa estará então contido na técnica e falará através dos gestos do corpo. A força do grande espírito (ki) serve à pessoa humana (ishi). Se o seu ki é liberado, você está eternamente livre para ir ao encontro de tudo, da maneira correta. Se o seu espírito está genuinamente reconciliado e em paz, você não pode ser atingido nem com pedras, nem com ouro, e não precisará de esquemas especiais para entrar em luta. Uma única coisa conta: que não haja nem um sopro de consciência egóica em jogo, se não tudo estará perdido. Se você pensar a respeito, nem que seja por uma mínima fração de tempo tudo se torna algo artificial e não fluirá mais a
partir da essência, da vibração primordial do corpo docaminho (do-tai). Se isso ocorre, então o seu inimigo também resistirá, em vez de fazer o que você espera dele. Portanto, que espécie de método e de arte devem ser empregados? Só quando você estiver livre de qualquer tipo de consciência (mu – shin), quando você agir sem agir, sem intenções ou truques, em harmonia
com a grande natureza de todas as coisas, é que você estará no caminho correto. Deixe portanto, de lado, qualquer intenção, exercite-se completamente destituído de intenções, e deixe simplesmente que as coisas aconteçam a partir da sua essência intrínseca. Esse caminho é sem fim e inesgotável.”

E o velho gato acrescentou ainda algo surpreendente: “Vocês não devem acreditar que o que eu lhes disse hoje seja a última palavra. Há pouco tempo vivia numa aldeia vizinha um velho gato. Ele dormia o dia inteiro. À sua volta, porém, não havia o menor vestígio de qualquer coisa que pudesse assemelhar-se a alguma força espiritual. Ele permanecia deitado com um tronco. Ninguém jamais o viu apanhando um rato por perto. Mas não havia o menor vestígio de rato onde quer que ele aparecesse ou permanecesse. Eu o procurei certo dia e lhe pedi que
me explicasse esse fenômeno. Ele não me respondeu. Repeti minha pergunta três vezes. Ele se calou. Na realidade, não se tratava de não querer responder, pois ele evidentemente não sabia o que dizer. E então eu soube: “Aquele que sabe não diz, e aquele que diz não sabe”. Este gato havia se esquecido de si mesmo e de tudo quanto o rodeava. Havia se convertido em “nada”, havia alcançado o mais alto nível de ausência de intenção. Poderíamos até afirmar que ele havia encontrado o divino caminho da “cavalaria”: vencendo sem matar. Falta-me ainda
percorrer um longo caminho para chegar lá.”

“Shoken ouviu tudo isso como que num sonho. Aproximou-se, cumprimentou o velho gato, e disse: “Há muito tempo que eu pratico a arte da esgrima, mas ainda não alcancei o seu objetivo. Ouvi as suas palavras, e acredito ter entendido o verdadeiro sentido do meu caminho; porém, peço-lhe encarecidamente que me diga mais alguma coisa a respeito do seu segredo.”

“Como poderia fazê-lo?” – retrucou o velho gato. “Sou somente um animal, e o rato é o meu alimento. Como eu poderia saber alguma coisa sobre as preocupações humanas? Sei apenas o seguinte: o sentido da arte da esgrima não consiste apenas em vencer um adversário.

Trata-se muito mais de uma arte, que em última análise, pode levar o homem à grande claridade, à compreensão do princípio da morte e da vida (seishi wo akiraki ni suru). Mesmo durante seus exercícios técnicos, um verdadeiro mestre deve tratar dessa prática com um cuidado constante. Para isso, no entanto, ele precisa sobretudo estudar a doutrina básica da vida e da morte no Ser e do significado da morte(shi no ri). Só aquele que está livre de tudo o
que o desvia do caminho (hen kyoku, a distância média) e sobretudo do pensamento que define, é que terá acesso à grande luz espiritual. Se a natureza e o encontro do homem com ela (shin ki) ocorre sem interferências ou perturbações, livre do eu ou de qualquer outra coisa, esta fica totalmente livre para se manifestar sempre que for necessário. Mas se o coração ainda se apega a algo, por menor que seja esse apego, a essência intrínseca fica presa e se converte em algo estático em si mesmo. Quando isso ocorre, pressupõe-se a existência de um eu que se lhe contrapõe. Temos então uma dualidade que se encara, brigando pela sobrevivência. Nesse caso, são anulados os maravilhosos efeitos da natureza intrínseca, cuja
essência é a mutação constante. Surgem, então, as garras da morte e perde-se a clareza da própria essência. Nesse estado de ânimo, como se poderia dar o encontro com o adversário numa postura correta, encarando tranquilamente a “vitória ou a derrota”? A própria vitória seria então uma vitória cega que nada teria que ver com o sentido da verdadeira arte da
esgrima! “Ser livre de todas as coisas não significa um vazio. A essência intrínseca como tal não tem natureza própria, pois transcende todas as formas. Ela também não tem nenhum arquivo. Mas, se o homem se apegar a qualquer coisa, por mais passageira que seja, o equilíbrio primordial do fluxo de energias se perde.
Se a essência intrínseca for aprisionada, mesmo que de leve, por alguma coisa, seu movimento deixa de ser livre e a energia não flui imperturbável, em plenitude. Se o equilíbrio da essência humana se altera, sua força acaba depressa, para onde quer que seja direcionada, e não basta. Onde houver excesso de energia não há como detê-la, e ela se extravasa.
Quando há carência de energia, o espírito se enfraquece e fracassa sempre que se tratar de
enfrentar uma situação. O que eu chamo de estar livre de todas as coisas nada mais significa do que o seguinte: não acumular nada, não se apoiar em nada, não se fixar em nada, pois então já não haverá nem um eu, nem um antieu. Quando algo acontece, nós encaramos o acontecido como se estivéssemos inconscientes e o fato não deixa vestígios. O I Ching (O Livro das Mutações) diz o seguinte:

“Nenhum pensamento, nenhuma ação, nenhum movimento, e sim a quietude total: só assim se pode manifestar a natureza intrínseca e a lei das coisas a partir do interior, estando o homem inteiramente inconsciente, para tornar-se finalmente Uno com o céu e a terra”. Aquele que assim pratica e entende a arte da esgrima está próximo ao caminho da verdade.”

“Ao ouvir isso tudo, Shoken indagou: “O que significa não haver um eu, nem um antieu, não haver sujeito nem objeto?”

E o gato replicou: “Quando há um eu, há também um adversário. Quando o homem não se apresenta como um eu, também não há um adversário. Adversário é o princípio da oposição. Enquanto as coisas mantêm uma forma, implicam a existência de uma antiforma. Sempre
que se define qualquer coisa, ela passa a ter forma própria. Se a minha essência íntima é desprovida de forma, não existe a sua antiforma. Não havendo oposição, nada se opõe a nada. E isso significa o seguinte: não há um eu, nem um antieu. Ao se soltar completamente, ao se tornar totalmente livre, fundamentalmente desapegado de todas as coisas, o homem se encontra em harmonia com o mundo, tornar-se Um com as coisas na grande Unidade Total. Mesmo se a forma do seu oponente se extinguir, ele permanece completamente alheio a esse desaparecimento. Não se trata de não perceber essa extinção, mas de não se fixar nisso, de não se ater a isso. Seu espírito continua a se movimentar livremente, isento de qualquer fixação, e suas ações fluem diretamente da sua essência intrínseca. “Se o nosso espírito já não
se apega mais a nada, livre de todo e qualquer apego, então o mundo, tal como é, será completamente nosso, será Um conosco. Isso significa que agora nós o aceitamos, transcendendo o bem e o mal, a simpatia ou a antipatia. Nada mais nos prende, e também a nada mais nos agarramos. Todas as oposições que nos aparecem, ganho ou perda, bem ou mal, alegria ou dor, provêm de nós mesmos. Por isso não há nada entre o céu e a terra que seja tão valioso para nós como o conhecimento da nossa própria natureza intrínseca.
Dizia um antigo poeta: “Um grãozinho de poeira no seu olho, e os três mundos são ainda demasiado estreitos; se já não nos importamos com nada, a menor cama ainda será grande demais.” Ou em outras palavras: um grãozinho de poeira, ao entrar em nosso olho, impede
que ele se abra, pois algo atrapalha a visão clara, que só acontece quando não há nada no interior do olho. Isso pode ser uma metáfora do Ser, a luz que brilha e ilumina, em si mesma é completamente isenta de tudo o que é “qualquer coisa”. Mas quando qualquer coisa se coloca diante do Ser, essa imagem destroi a sua virtude. “E outro poeta dizia: “Se você está rodeado por cem mil inimigos, então aquilo que você é, na sua própria forma, fica esmagado. Mas a natureza intrínseca é sua, e permanece sua, por mais forte que seja o inimigo. Pois nenhum inimigo pode jamais penetrar.” “Dizia Confúcio: “A essência intrínseca não pode ser roubada nem mesmo de um homem pobre. Mas se o seu espírito torna-se confuso, sua essência intrínseca volta-se contra ele.” “Isto é tudo o que eu lhes posso dizer. Penetrem no interior de vocês mesmos, e procurem conhecer-se melhor. Um mestre só pode tentar transmitir algo ao aluno e tentar explicá-lo. Porém, só você mesmo pode reconhecer a verdade e apropriar-se
dela. A isso se chama “autoconhecimento” (jitoku). A transmissão se dá de coração a coração (ishin denshin). Trata-se da transmissão de um dom por intermédio de sendas  extraordinárias, que transcendem o vazio e a erudição (kyogai betsuden). O que não
significa que contradizem os ensinamentos do mestre.

Quer dizer apenas que mesmo um mestre não é capaz de transmitir a verdade. E isto não é válido somente para o Zen. Desde os exercícios espirituais dos antigos, desde a arte de aprimoramento da alma até as belas artes, o elemento vital sempre foi o autoconhecimento,
e este só pode ser transmitido de coração a coração, além de qualquer ensinamento comunicado. O propósito de cada ensinamento é apenas: apontar e ressaltar
aquilo que todo homem já possui sem saber. Também não existe nenhum segredo que o mestre possa “passar” para o discípulo. É fácil ensinar. Ouvir é fácil. Difícil é conscientizar-se daquilo que se possui dentro de si mesmo, encontrá-lo e tomar posse dessa essência
adequadamente. A isso chamamos olhar para dentro de si mesmo, a isso denominamos visão da essência (ken-sei, ken-sho). Se isso ocorrer, alcançamos o satori. É o grande despertar do sonho, das ilusões e dos enganos. Despertar, vislumbrar a nossa natureza intrínseca,
perceber a própria verdade, é a mesma coisa.”

Ito Tenzen Chuya “

Agradeço a Takeharu Teramoto, meu professor de Zen, por um texto de inesgotável profundidade, “A História da Arte Maravilhosa de um Gato”, que transmite uma visão única e vívida da dialética das cinco etapas.
Takeharu Teramoto foi almirante e antigo professor da Academia de Marinha de Tóquio. Sua prática (gyo) era a esgrima. Essa história lhe foi transmitida por seu mestre, o último de uma escola de esgrima na qual a história dos cinco gatos havia sido secretamente transmitida desde o século XVII.”

KARLFRIED GRAF DÜRCKHEIM

Do livro: O Zen e Nós. Editora Pensamento.


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