A cidade dos Poços.

A cidade dos Poços.


(26 contos para pensar – Jorge Bucay)

Esta cidade não estava habitada por pessoas, como todas as demais cidades do planeta.

Esta cidade estava habitada por poços. Poços viventes… Porém, poços ao fim.

Os poços se diferenciavam entre si, não somente pelo lugar onde estavam escavados senão também pela sua borda, abertura que os conectava com o exterior. Havia poços ostentosos com bordas de mármore e de metais preciosos; poços humildes de ladrilho e madeira e alguns outros mais pobres, com simples buracos pelados que se abriam na terra.

A comunicação entre os habitantes da cidade era de borda a borda e as noticias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.

Um dia chegou na cidade uma ‘moda’ que seguramente havia nascido em algum povoado humano: a nova idéia assinalava que todo ser vivente que se preze deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não é o superficial, e sim o conteúdo.

Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas. Alguns se enchiam de coisas, moedas, de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, se encheram de eletrodomésticos e aparatos mecânicos. Alguns mais optaram pela arte e foram enchendo-se de pinturas, pianos de cauda, e sofisticadas esculturas ‘pós-modernas’. Finalmente os intelectuais se encheram de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.

Passou o tempo.

A maioria dos poços se encheram a tal ponto que já não podiam incorporar nada mais. Os poços não eram todos iguais assim que, se bem alguns se conformaram, houve outros que pensaram que deviam fazer algo para seguir metendo coisas em seu interior…

Alguns deles foi o primeiro: em lugar de apertar o conteúdo, se lhes ocorreu aumentar sua capacidade inchando-se.

Não passou muito tempo antes que a idéia fosse imitada. Todos os poços gastavam grande parte de suas energias inchando-se para ter mais espaço em seu interior.

Um poço, pequeno e distante do centro da cidade, começou a ver seus camaradas inchando-se desmedidamente. Ele pensou que se seguiam inchando-se de tal maneira, de imediato se confundiriam suas bordas e cada um perderia sua identidade…

Quiçá a partir desta idéia lhe ocorreu que outra maneira de aumentar sua capacidade era crescer, porem não para os lados e sim para o profundo, fazer-se mais fundo no lugar de mais largo.

Logo se deu conta que tudo o que tinha dentro dele o impossibilitava a tarefa de se aprofundar. Se queria ser mais profundo devia esvaziar-se de todo o conteúdo…

Ao principio teve medo do vazio, porem logo, quando viu que não havia outra possibilidade, assim fez.

Vazio de possessões, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os demais se apoderavam das coisas que ele havia se desfeito…

Um dia, o poço que crescia para dentro teve uma surpresa: dentro, muito dentro, e muito fundo, encontrou água!

Nunca antes outro poço havia encontrado água…

O poço superou a surpresa e começou a jogar com a água do fundo, umedecendo as paredes, salpicando as bordas e por ultimo tirando água para fora.

Acidade nunca havia sido regada a não ser pela chuva, que de fato era bastante escassa, assim que a terra ao redor do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.

As sementes de suas entranhas brotaram no pasto, em brotos, em flores, em pequenos troncos que logo depois se tornaram árvores…

A vida explodiu em cores ao redor do distante poço ao que começaram a chamar “El Vergel”. (“ O Pomar”)

Todos perguntavam como havia conseguido o milagre. – nenhum milagre –contestava Vergel- há que se buscar no interior, no profundo… muitos quiseram seguir o exemplo de Vergel, porem desandaram da idéia quando se deram conta de que para ir mais profundo deviam esvaziar-se.

Seguiram inchando-se cada vez mais para encher-se mais de coisas…

Em outra ponta da cidade, outro poço, decidiu correr também o risco do vazio…

E também começou a aprofundar-se…

E também chegou a água…

E também salpicou para fora criando um segundo oásis verde no povoado…

Que farás quando termine a água ? – perguntaram. – Não sei o que se passará – contestava- Porém por agora, quanto mais tiro, mais água há. Passaram uns quantos meses do grande descobrimento…

Um dia, quase por casualidade, os poços se deram conta de que a água que haviam encontrado no fundo de si mesmos era a mesma… que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.

Deram-se conta que se abria para eles uma nova vida. Não somente podiam comunicar-se de borda a borda, superficialmente como todos os demais como também a busca lhes havia deparado um novo e secreto ponto de contato:

A comunicação profunda que só conseguem entre si, aqueles que tem a coragem de esvaziar-se de conteúdos e buscar no profundo de seu ser o que têm para dar…

tradução livre

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6 Respostas to “A cidade dos Poços.”

  1. Mto belo! A sabedoria se busca no interior, ainda se pode expandí-la!

  2. Analogia entre a consciência Cósmica e Universal à integralidade totalizada descoberta na profundidade insondávél de cada um, de cada poço que somos, somos muitos e ao mesmo tempo somos UM (UNIVERSUS!) Somos a divercidade na Unidade.

    Natureza íntima/profunda e conciência cósmica eterna neste texto, muito bom.

    O fim de minha existencia é o inicio da sua e o fim da sua existencia é o inicio de outras, assim entre nascer e morrer vamos nos tornando UM no vazio da imanifestação.

    PX
    X

  3. lindo!

  4. muito fera, nos faz ter uma reflexão sobre a busca pelo espiritual e esquecer essa vida mundana de materialismo

    • Oi Jor-el,

      O equilíbrio conta tanto com a reflexão e busca pelo espiritual quanto com a vida ‘mundana’ do materialismo, uma sem a outra não existiria. É na reflexão e busca espiritual que criamos, experimentamos, manifestamos o mundano material. Esquecer as responsabilidades da VIDA mundana é fugir da essência que nos faz manifestá-la. E fugir de si mesmo. Isso é comum, pois ao olhar para suas vidas as pessoas não gostam do que criaram, e arrumam milhares de desculpas e culpados externos para fugir da responsabilidade que a vida que possuem é sua criação. E pior, ficam perdidos na armadilha entre o que já passou e o que virá e deixam passar o aqui/agora, o único instante em que podem criar, existir e experimentar.

      O problema sério é que hoje em dia poucos ainda são os que encontraram o equilíbrio e usam a ‘água comum a todos os poços’ para criar a exuberância exterior, a maioria não quer desfazer-se da aparência mórbida. Há que encontrar a si mesmo, e não fugir, e isso é trabalhoso, os poucos que se aventuram são chamados de ‘guerreiros’ pois tiveram a ‘coragem’ de lutar contra o inimigo interno.

      O axioma do materialismo é que “aquilo que você possui, possuirá voce”. O paradoxo é que o mesmo valerá para o ‘espiritual’.
      .
      E tudo começa com esvaziar o poço. E, quem entra em contato com estes ensinamentos não tem volta, ou se perde na futilidade a qual terá que lidar num futuro com sua consciência, ou começa o trabalho.

      Bem vindo a bordo =) Podes encontrar outros ensinamentos nesta nau.

  5. Muito boas as conclusões. Arauto, tu tavas escondendo o ouro, é? Isso aqui resume bem as coisas: O axioma do materialismo é que “aquilo que você possui, possuirá voce”. O paradoxo é que o mesmo valerá para o ‘espiritual’.
    Valeu!

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